Histórias de verão
Luis Fernando Verissimo
1 – A exploração de Marte
- Marina, do laboratório.
- Marina! Não reconheci você sem...
- Sem roupa?
Trabalhavam juntos. Viam-se todos os dias. Mas de compridos jalecos brancos. E agora ali estavam, ele de sunga, ela de biquíni. Era estranho. Davam-se bem, no trabalho. Até se poderia dizer que tinham ultrapassado a fase de apenas colegas e a de apenas amigos e se encaminhavam para outra fase, ainda indefinida. Ou, como Marina disse para uma amiga: “Já pintou mas ainda não rolou”. Encontrando-se assim, por acaso, na praia, tinham de certa forma queimado etapas. Do jaleco comprido direto para a seminudez, sem fases intermediarias!
Ele já a imaginara nua, claro. E vice-versa. O que haveria embaixo do jaleco que cobria todo o corpo? Normalmente, o processo de descobrimento levaria tempo. Um pouco como a exploração de Marte: primeiro tinham que desenvolver um foguete, depois construir um robô, depois colocar o robô na superfície de Marte, depois esperar que o robô começasse a mandar fotos do que havia sob o jaleco de Marte para analisa-las com cuidado. Aquilo era uma sombra ou uma cratera? E aquilo, seriam pegadas? Um longo processo, uma lenta conquista. Assim, tinham, subitamente, toda a informação que queriam da superfície um do outro. Sem ter que esperar, sem merecer. Era estranho. Não parecia natural. Dois seminus não conversam como dois de jaleco comprido.
Examinaram-se.
Ele: “Nada mau. Grandes seios, quem diria. Barriguinha, mas no limite do aceitável. Meu Deus, aquilo é uma tatuagem?”
Ela: “Podia ser pior. Pernas finas, mas tudo bem. Iih, ele viu a tatuagem”.
Ele: “O que significa uma tatuagem ali? Nada, todas têm tatuagem, hoje em dia. Mesmo as patologistas. Mas ali? Parte de dentro da coxa? Perigo. Perigo”.
Ela: “Ele vai dizer alguma coisa sobre a tatuagem? Eu deveria dizer? É brincadeira, sai lavando. Não. Melhor ficar quieta. Melhor dizer alguma coisa.”
- Você vem sempre aqui?
- Não, não. Primeira vez. Você?
- Eu venho sempre, no verão. Quando você falou que também ia tirar férias, não imaginei que...
- Pois é, decidi em cima da hora. Legal, aqui, né?
- É.
E pronto. Não conversaram mais, não combinaram de se ver depois, um não perguntou quanto tempo o outro ia ficar. Afastaram-se e ele nem se virou para examiná-la por trás. Era melhor só voltarem a se encontrar no laboratório. Como se nada tivesse acontecido. Como se nada tivesse sido visto. Recomeçar a amizade de jaleco comprido e deixar que o que fosse acontecer acontecesse normalmente. Na exploração de Marte também é assim: tem que ser por etapas. Ninguém deve se precipitar. Para não haver o risco de um desastre. Ou de confundirem uma rocha com uma tartaruga.
2 – Distinguidos
Na roda, alguém contou que conhecia alguém que conhecia alguém que tinha acertado a sena acumulada e enlouquecera. Como, enlouquecera? Passara a gastar como um doido, era isso? Mudara tanto de comportamento que se tornara um excêntrico? Um rico excêntrico? Era isso? Não. Enlouquecera mesmo. Estava internado, recebendo tratamento médico. Começara a pensar no que aquilo significava, ganhar a sena acumulada sozinho. E chegara a uma palavra torturante: distinguido. Fora distinguido com o prêmio. Entrara para o pequeno grupo dos distinguidos. Algo ou alguém os tinha distinguidos do resto da humanidade – e aquilo era terrível. Amigos e parentes tentaram convence-lo que ele apenas tivera sorte, que qualquer um poderia ter a mesma sorte, que a combinação dos números vencedores era pura acaso, como fora acaso a sua escolha dos números. Nada estava predeterminado, ninguém o tinha designado, o vencedor podia ser ele como qualquer outro. Sim, disse ele. Outro distinguido. E se eram os distinguidos, eram distinguidos desde sempre. Desde o começo. Desde o nascimento. Ele vivera toda a sua vida na mira desta distinção, sem saber. Só saberia quando ela acontecesse. E quando acertou a sena, teve a revelação. Toda a sua vida até ali tinha sido prólogo, só prólogo, nada mais do que prólogo. Ele não era quem ele pensava que era, era um distinguido antes da distinção, um distinguido antes disso lhe ser revelado. Tudo, seu nome, tudo, era falso, era desinformação. Até ganhar a sena acumulada, ele era uma mentira, uma dissimulação, um disfarce, uma espera. E o pior era não saber por que tinha sido distinguido. Por que ele? Por que logo ele? A família estava tentando interditá-lo para ficar com o prêmio. Para os médicos na clínica em que o internaram, ele não pára de dizer: “Os distinguidos ficam muito vulneráveis, entende? Não pertencemos mais a humanidade em geral. Perdemos a nossa camuflagem!”
- Outro na roda contou que conhecia o caso de outro distinguido. Alguém que também estava internado, recebendo tratamento médico e perguntando “Por que eu? Por que logo eu?”.
- Ele também ganhou uma fortuna na sena acumulada?
- Não. Foi atingido por um raio.
Pois há distinguidos e distinguidos.
Domingo, 18 de janeiro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.